Somos todos frágeis.

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Jean-Claude Carrière, em ‘Fragilidade’, tece pensamentos sobre a existência moderna; faz associações entre sua experiência com a velhice, a religião, as utopias, a ignorância, o saber. Segundo ele, para viver melhor é preciso aceitar a própria vulnerabilidade, pois ao reconhecê-la em nós, nos livramos das máscaras que camuflam nossos rostos e espíritos e que são insuportáveis para os outros. É por meio da percepção de que somos frágeis que nos tornamos aptos para descobrir a verdadeira força que há em nós e valorizar as boas coisas da vida.

 

Sim! Somos todos frágeis e deveríamos ser criados, desde sempre, cientes desta nossa condição.

Mas o que se afirma e se aprende é justamente o contrário: A vida é para os fortes e para fazer jus a tal afirmação vestimos máscaras diversas, capazes, todas elas de esconder nossas fraquezas. Desta forma aprendemos a crescer. Adaptamos nossos disfarces a vida que exige força.

Ao contrário do que supomos, no livro sobre Fragilidade, o dramaturgo e roteirista Jean-Claude Carrière afirma que nossa essência é feita de vidro. Está perpetuamente ameaçada, quebra-se ao menor choque. Como reagir a essa informação assustadora?

Em um mundo repleto de injustiças e cobranças, nossas preces ficaram sem respostas. A desilusão cresce e transforma-se em amargura. E a angústia em vulnerabilidade. Mas sempre disfarçadas.

Muito se fala em envelhecimento. Nosso país envelhece sem freios. A fragilidade humana fica sendo característica dos velhos. O mais jovem não a quer para si, afinal, a vida precisa seguir seu rumo num faz de conta insuportável.

Ao observar um idoso acamado sentimos nele nossa própria fragilidade. Impossível desvirtuar o olhar da debilidade refletida.

A lágrima que escorre diante da delicadeza da nossa história, nos faz pensar no quanto inventamos à vida e criamos subterfúgios para vivê-la. Mesmo que seja na mentira que elaboramos para aparentar força e coragem. Somos fracos e essa é a verdade por mais que tentamos escondê-la.

O que fazemos é aparentar certezas e posturas tão grandiosas que chegamos a convencer a nós mesmos daquilo que é inexistente e mesmo assim tão almejado.

Se pensarmos na História da Arte, cidades medievais mostravam força e poder através das riquezas de suas catedrais.

Mais do que um lugar divino, criavam-se verdadeiros espaços sagrados na crença de que era o poder econômico e político que garantia a felicidade de um povo. Era preciso mostrá-lo.

Riquezas ostentadas enquanto a fragilidade do povo era disfarçada em meio a folhas de ouro e ornamentos preciosos. Tudo era belo o suficiente para encobrir os limites de sua gente.

Como exemplo podemos citar a Catedral de Chartres, patrimônio mundial da UNESCO, que está localizada a 78 km de Paris. O exemplar gótico mais conservado da França, apesar de seus 800 anos, a igreja é um centro de peregrinação cristã. Em uma de suas capelas fica a relíquia conhecida como Santo Véu, que segundo a crença católica trata-se do véu usado por Maria no momento da anunciação.

A Idade Média não teve, em nenhum lugar, uma relíquia tão poética quanto esta capaz de proporcionar à cidade inteira a certeza de bênçãos pairadas sobre o povo.

O Manto de Maria foi doado por Carlos, o Calvo e teria sido o motivo da construção da catedral.

Construção que teve início em 1145 e que depois de 1194 foi reestruturada e reconstruída após um incêndio que teria destruído, entre muitas coisas, o manto de Maria.

O povo então se sentiu perdido pela destruição tendo sua maior preciosidade queimada. Com as chamas a fragilidade de toda uma sociedade foi exposta e escancarada.

Curiosamente, como que em um milagre, o manto reaparece e a população que se sentia demolida, ganha novamente a certeza de força e soberania.

Assim como nas catedrais medievais repletas de tesouros e vitrais preciosos escondemos nossa fragilidade na modernidade de uma vida que encobre tristezas e angústias em frascos de comprimidos.

Os vitrais azuis da Catedral de Chartres refletem uma luz única que nós na modernidade a substituímos por telas de computadores, tablets e celulares.

Os vidros da igreja refletem narrativas de histórias fabulosas em vidros coloridos. Histórias que transmitem fé e fortalecem seus visitantes.

Já na luz dos monitores as fraquezas são camufladas e o homem mostra-se potente, feliz, com caras e bocas.

Ao envelhecer perdemos a capacidade de fingir e deturpar nossas sensações. Ser frágil passa a ser percebido com uma verdade antes não vista. O Velho é frágil. Mas não porque envelheceu, mas simplesmente porque entendeu a real condição humana. O velho é sábio. Sabedoria adquirida com a vida.

Ele entende os “mantos” sagrados mostrados pela vida como uma simbologia e não como a verdade absoluta. Questiona-se o sentido da veracidade.

Como o manto de Nossa Senhora que reaparece sem levantar questionamentos, a fragilidade da velhice como percepção amadurecida dos velhos e escancarada aos jovens passa a ser um fato real e comum a todos.

A Fragilidade é sim algo pertencente à velhice, mas não pertence só aos velhos.

Se quiser aprender a ser forte, comece entendendo suas fraquezas.

É na certeza da fragilidade que conseguimos construir nossas próprias catedrais.

 

(*) Cristiane Pomeranz é arteterapeuta e mestranda em Gerontologia pela PUC-SP.  Email: crispomeranz@gmail.com

 

http://www.portaldoenvelhecimento.com/ideias/item/4032-somos-todos-frageis

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