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O Coração e as estrelas

por Cristiane Pomeranz

 

Eu era muito pequena mas recordo perfeitamente a sensação indescritível que sentia ao ser colocada nos ombros dele para, juntos, explorarmos as profundezas do mar. Segurando em suas costas íamos até onde os pés não mais encontravam o chão, quando o ouvia anunciar o apse da nossa grande aventura: prenda a respiração que vamos buscar estrelas.

Eu, nos meus 5 anos vividos, percebia neste momento que a vida podia nos presentear com belezas ocultas, desde que ousássemos procurá-las. Nosso mergulho levava pouco tempo já que naquela época o mar de São Vicente era límpido e muito vivo. Ao segurar seu pescoço sabia que estava protegida e que nada, jamais iria me acontecer.

Ao pegar a estrela do mar, voltávamos a superfície com ela em suas mãos como um troféu arduamente conquistado. Num longo suspiro heróico recuperávamos o fôlego ao mesmo tempo que eu me enchia de orgulho pelo momento vivido. A estrela, depois de ser apreciada por mim, ganhava novamente as águas enquanto eu, ainda agarrada nas suas costas, me preparava para “nadar” até onde meus pés encontrariam o chão. Hoje, nos meus 52 anos, consigo vivenciar toda aquela sensação que certamente estará para sempre comigo.

Dizem que antes de nascer nos  é dado o direito de escolher as pessoas que estarão ao nosso lado nesta jornada da vida.

Fui contemplada  ao nascer filha dele e ter na figura paterna a mais real definição da palavra amor.

Quando me foi dado o direito de nascer ao seu lado, obtive em minhas mãos o maior presente que a vida poderia me dar: Meu pai.

O ano começou forte, mostrando a mim e a minha familia como somos ínfimos comparados a onipotência do viver, já que de uma hora para outra as válvulas calcificadas de seu coração resolveram interromper a vivacidade invejável que ele possui.

Sua velhice tem sido um exemplo para mim que percebo nela a importância de envelhecer com flexibilidade.

Quando os problemas acontecem é preciso passar por eles e assim que possível inverter o rumo da história sem ficar remoendo o que ficou para trás. Aliás, com ele aprendo constantemente a deixar ir embora tudo aquilo que nos impede de prosseguir, afinal ele já me mostrou lá atrás que mesmo ao perder o fôlego, com calma, achamos as estrelas.

Nestes últimos dias, tenho observado a vida agir enquanto nos mostra nossa total insignificância. “Ponha-se no seu lugar!” diz ela, e eu tento então, recolher o desespero e transformá-lo em oração. E se a fé conforta, chego a cantarolar o pai-nosso no meu pensamento diversas vezes seguidas. Uma oração difícil para alguém, que como eu, cresceu em meios a mimos de amor e torce o nariz ao dizer o tal “ seja feita a vossa vontade” afinal, e se a vontade dele não for a mesma que a minha? Confesso que esta parte da oração sempre me perturba um pouco.

O curioso deste momento é perceber a finitude como parte real da vida, afinal só nos damos conta de que somos finitos quando vivemos alguma ameaça. Falta conversa franca ao longo desta vida de faz de conta. Deixa esse assunto para lá! Pra que falar sobre o fim? Vamos mudar de assunto!

As cirurgias cardíacas são corriqueiras e garantem 94% de chance de sucesso oferecendo aos velhos uma maior qualidade de vida e meu pai tem enfrentado a situação como sempre fez durante toda sua vida: me surpreendendo, afinal pessoas que são bem resolvidas, como ele é, enfrentam tudo o que a vida oferece com uma sabedoria que, pessoas não tão bem resolvidas como eu, não conseguem entender. Daqui alguns dias, ele abrirá o peito que mal sustenta o tamanho do seu coração.

Novas válvulas serão colocadas para que o sangue flua corretamente.

Um dos corações mais caridosos que encontrei na vida e que com certeza fez eu me constituir a pessoa que sou hoje, ganhará nova força para seguir em frente. Mais um pouco e tudo fará parte do passado e eu, como sempre fiz, poderei me segurar a você para juntos descobrirmos novas estrelas. Respire fundo pai! Teu coração é maior do que o mundo e tudo isso é muito pouco perto do amor que nos fortalece. Sim! Precisamos ter fôlego, mas saiba que a superfície nos aguarda para apreciar mais esta conquista.

Por hora, só posso dizer que te amo e que estarei ao seu lado para, juntos respirarmos aliviados. O mar está repleto de estrelas…

 

texto escrito para o Blog poética da velhice no Portal do Envelhecimento

http://www.portaldoenvelhecimento.com.br/category/poetica-da-velhice/

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Dia 21 de setembro. Dia da conscientização da Doença de Alzheimer


O Alzheimer ainda não tem cura, mas tem tratamento

Encarar a doença é a melhor solução para todos: doentes e familiares.

Negar os fatos dificulta ainda mais a possibilidade do doente ter uma vida com qualidade e retardar o avanço da doença.

As memórias e as histórias de vida se apagam com a piora. Palavras falham, mas o branco da memória pode ganhar  um colorido através da arte.

Arte que promove bem estar, expressão, autonomia e estímulo.

Colocar o idoso com Alzheimer em contato com a arte é presenteá-lo com momentos prazerosos em meio ao tumulto causado pelo doença. É olhar para o que resta e não para o que se foi. É dar à ele a possibilidade de dizer com gestos e pinceladas aquilo que as palavras dificultam em descrever.

Neste dia 21 lembre-se:

Você não está sozinho.

Procure a ajuda da ABRAZ e saiba: Quando a memória falha a Arte transforma.

o Afeto permanece. Sempre.

 Dia gostoso esse que passamos hoje. Pintura no atelier e visita à exposição de Pablo Atchugarry com a presença do escultor. E em meio as esculturas nossos olhares percorriam a beleza do tempo como matéria. Terminando a visita , fomos dar um costumeiro beijinho com os votos de uma linda semana, quando ouvimos em alto e bom tom:

Obrigada por terem me trazido a este lugar tão lindo!
E nós de coração queremos agradecer à esses filhos e filhas especiais que nos entregam, toda semana, essas verdadeiras jóias em nossas mãos. Obrigada pela confiança e por entenderem que mesmo que a memória falhe, o afeto permanece.